{"id":105,"date":"2022-12-13T19:24:43","date_gmt":"2022-12-13T19:24:43","guid":{"rendered":"https:\/\/p.aeffl.pt\/blog\/?p=105"},"modified":"2022-12-13T19:24:43","modified_gmt":"2022-12-13T19:24:43","slug":"natal-miguel-torga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/p.aeffl.pt\/blog\/2022\/12\/13\/natal-miguel-torga\/","title":{"rendered":"&#8220;Natal&#8221;, Miguel Torga"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cDe sacola e bord\u00e3o, o velho Garrinchas fazia os poss\u00edveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. Pedir \u00e9 um triste of\u00edcio, e pedir em Lourosa, pior. Ningu\u00e9m d\u00e1 nada. Tenha paci\u00eancia, Deus o favore\u00e7a, hoje n\u00e3o pode ser \u2013 e beba um desgra\u00e7ado \u00e1gua dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que rem\u00e9dio sen\u00e3o alargar os horizontes, e estender a m\u00e3o \u00e0 caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma c\u00f4dea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam\u2026 L\u00e1 se tinha f\u00e9 na ora\u00e7\u00e3o, isso era outra conversa. As boas a\u00e7\u00f5es \u00e9 que nos salvam. N\u00e3o se entra no c\u00e9u com ladainhas, tirassem da\u00ed o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim\u2026 Segue-se que s\u00f3 dando ao canelo por muito largo conseguia viver.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ali vinha demais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez r\u00e9is no bolso e o bornal cheio, o certo \u00e9 que j\u00e1 lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manh\u00e3zinha, punha-se a caminho. Mas qu\u00ea! Metera-se-lhe na cabe\u00e7a consoar \u00e0 manjedoira nativa\u2026 E a verdade \u00e9 que nem casa nem fam\u00edlia o esperavam. Todo o calor poss\u00edvel seria o do forno do povo, permanentemente escancarado \u00e0 pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a p\u00e3o fresco da \u00faltima cozedura\u2026 Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, n\u00e3o. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santu\u00e1rio coletivo da fome, podiam. O problema estava em chegar l\u00e1. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que n\u00e3o, \u00e9 um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa come\u00e7ou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo n\u00e3o havia outro rem\u00e9dio sen\u00e3o ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o cora\u00e7\u00e3o a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir miseric\u00f3rdia. Tivesse paci\u00eancia. O rem\u00e9dio era andar para diante. E o pior de tudo \u00e9 que come\u00e7ava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre j\u00e1 est\u00e1 acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele ent\u00e3o, se fosse a queixar-se! Cada desconsidera\u00e7\u00e3o do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para qu\u00ea?! N\u00e3o lucrava nada! Chamavam-lhe fil\u00f3sofo\u2026 Areias, queriam dizer. Importava-se l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ca\u00eda, o algod\u00e3o em rama! Ca\u00eda, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que \u00e9, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador \u00e0 fadiga, e foi rompendo a chuva de p\u00e9talas. Rico panorama!<br>Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. \u00c0 volta n\u00e3o se enxergava um palmo sequer de ch\u00e3o descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.<br>N\u00e3o havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar gra\u00e7as!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entrou no alpendre, encostou o pau \u00e0 parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e s\u00f3 ent\u00e3o reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora for\u00e7ara a fechadura.<br>V\u00e1 l\u00e1! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasi\u00e3o devida\u2026 Para j\u00e1, a fogueira que ia fazer tinha de ser c\u00e1 fora. O diabo era arranjar lenha.<br>Saiu, apanhou um bra\u00e7ado de urgueiras, voltou, e tentou acend\u00ea-las. Mas estavam verdes e h\u00famidas, e o lume, depois de um clar\u00e3o animador, apagou-se. Recome\u00e7ou tr\u00eas vezes, e tr\u00eas vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os f\u00f3sforos todos \u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num come\u00e7o de ang\u00fastia, porque o ar da montanha tolhia e come\u00e7ava a escurecer, lembrou-se de ir \u00e0 sacristia ver se encontrava um bocado de papel.<br>Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavet\u00e3o, e j\u00e1 mais sossegado, e tamb\u00e9m agradecido ao c\u00e9u por aquela ajuda, olhou o altar.<br>Quase invis\u00edvel na penumbra, com o divino filho ao colo, a M\u00e3e de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! \u2013 desejou-lhe ent\u00e3o, a sorrir tamb\u00e9m. Contente daquela palavra que lhe sa\u00edra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da prociss\u00e3o arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paci\u00eancia. L\u00e1 morrer de frio, isso v\u00edrgula! Ia escavacar o ar canho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Da\u00ed a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, n\u00e3o desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; s\u00f3 de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia \u00e1gua na boca; que mais faltava?<br>Enxuto e quente, o Garrinchas disp\u00f4s-se ent\u00e3o a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um peda\u00e7o de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consci\u00eancia, ergueu-se e chegou-se \u00e0 entrada da capela. O clar\u00e3o do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. \u00c9 servida?<br>A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino tamb\u00e9m.<br>E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, n\u00e3o esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.<br>\u2014 Consoamos aqui os tr\u00eas \u2013 disse, com a pureza e a ironia de um patriarca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 A Senhora faz de quem \u00e9; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, fa\u00e7o de S. Jos\u00e9.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Miguel Torga, <em>Novos Contos da Montanha<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"505\" data-id=\"106\" src=\"https:\/\/p.aeffl.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Natal.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-106\" srcset=\"https:\/\/p.aeffl.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Natal.jpeg 400w, https:\/\/p.aeffl.pt\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Natal-238x300.jpeg 238w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDe sacola e bord\u00e3o, o velho Garrinchas fazia os poss\u00edveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe demais. 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